Intolerância religiosa, tema do Enem 2016

Deus é Fiel. Ele Promete e Cumpre….

Modelos……
“Dai a Cesar o que é de Cesar”

O decorrer do curso histórico foi marcado pela união entre religião e Estado. De forma que, tal ligação, de tão significativa, tornou-se indissociável por séculos, amputando liberdades e autonomias. Entretanto, a influência que era exercida por essas instituições – uma sobre a outra – com o tempo enfraqueceu-se, abrindo espaço para o surgimento de um Estado laico, que cresce sob o desafio de tornar-se verdadeiramente neutro.
Das teocracias aos Estados confessionais, por muito tempo o poder do Estado confundiu-se com o poder religioso. Nesse contexto, instaurou-se a censura, destruindo a autonomia e aniquilando o direito à liberdade de esferas filosóficas a espirituais. Com o transpassar dos séculos, na busca de uma harmonização que privilegiasse a liberdade e que houvesse um domínio próprio e independente da comunidade política e igreja, surgiram pensadores como John Locke, que afirmava que o Estado nada pode em matéria puramente espiritual, e a igreja nada pode em matéria temporal. Partindo desse viés, na tentativa de sair da esfera de influência direta das religiões, o Estado tornou-se laico – sendo o Brasil um deles. O fortalecimento do laicismo estatal brasileiro fica evidenciado no reconhecimento pelo supremo tribunal federal (STF) da união estável entre cônjuges do mesmo sexo, ato que vai de encontro aos dogmas religiosos.
Apesar do crescente fortalecimento da neutralidade estatal perante a religião, ainda há estigmas a serem rompidos. Nesse sentido, o número de políticos no congresso ligados à religiosidade, que a usam na tentativa de influenciar muitas decisões tomadas no Brasil atualmente, é considerável. Desde políticos que propõe emendas, com o objetivo de acrescentar associações religiosas capazes de propor ações de constitucionalidade e inconstitucionalidade no STF às políticas que cogitam a possibilidade de uma “cura gay”. Somando-se a tais fatos, gerou-se uma polêmica em torno da legalização do aborto em casos de anencefalia, de um lado um Estado laico discutindo política e saúde pública, do outro, religiosos contrários a tal descriminalização, por considerarem um pecado contra a vida.
Para o pensador Eduardo Galeano, os Estados laicos são os responsáveis pela implementação da tolerância e das liberdades no âmbito interno da democracia. Contrariando essa lógica, percebe-se que o Estado somente possui laicidade na proporção de sua intolerância. Nesse sentido, se faz preciso, na Era das Conquistas de direitos plenos, a luta para que a liberdade religiosa não seja uma perspectiva, mas uma prerrogativa de Estado.

Igreja da Fé
Na história da humanidade, a influência religiosa sobre o indivíduo foi, e ainda é, inegável. Com poderes inquestionáveis sobre a mente humana, a igreja representava a força dominante na sociedade, sendo impossível dissociar o desenvolvimento humano da influência da religião. Com a chegada da Era Tecnológica, essa premissa foi contrariada, permitindo o estabelecimento de novos valores humanos.
Pode-se afirmar, de fato, que a religião escreveu a história da humanidade. Importantes acontecimentos, que determinaram, no passado, o que hoje se vive no presente, só se tornaram possíveis devido ao poder religioso que comandava a humanidade. Desde a expansão marítima, que teve como um dos principais motivos o catolicismo, à contemporaneidade, onde o capitalismo teve um avanço enorme graças ao Protestantismo, a fé move o homem e constrói sua evolução ao longo dos séculos.
No segundo milênio, entretanto, o avanço da ciência leva o homem a questionar valores incutidos pela igreja, desmistificando crenças invioláveis e minando, assim, a instituição religiosa. Contrariando essa lógica, embora a razão tenha ganhado força e espaço na sociedade, ela nunca conseguiu desconectar o homem de sua religiosidade, a qual ainda o guia em suas ações e instintos, como aconteceu no caso da Primavera Árabe, que eclodiu em 2011, onde a onda de protestos populares teve forte influência do Islamismo.
Torna-se perceptível, portanto, que, por mais que tenha avançado a ciência, a religião ainda suscita a humanidade. Embora a Igreja tenha perdido sua categoria de culto político dominante, a Era Tecnológica contribuiu para o surgimento de uma época onde o fortalecimento da crença dá origem a uma igreja universal. A Igreja da Fé.

Múltiplos monoteísmos
No limiar do século XXI, a sociedade é confrontada com inúmeras culturas religiosas. Contrariando as expectativas iniciais de que a religião acabaria por enfraquecer perante a evolução da ciência e da lógica, ela está extremamente viva na contemporaneidade. Assim, os homens continuam indo para guerras e sendo mortos entre bênçãos e orações.
Desde o surgimento das primeiras civilizações a religiosidade desempenha um papel central na vida dos homens. Partindo dessa máxima, o mítico surge como sustentação para a vida e para os atos racionais dos seres humanos. A sociedade pós-moderna amplia essa base com uma pluralidade de culturas religiosas, e o acesso fácil a qualquer cultura, seja por meio físico ou virtual, acaba por estimular a necessidade de o homem conhecer melhor o seu interior. Com a internet e a movimentação de pessoas, um hindu é questionado mais facilmente sobre o porquê de ele crer em vários deuses e o protestante apenas em um deus.
A religião é, historicamente, o instrumento mais amplo e efetivo de legitimação. De César e seu império ao Iraque e suas facções, o sangue derramado em guerras é lavado com água benta e abençoado com palavras santas. Sustentando essa égide, o muçulmano, em sua essência, ratifica o expansionismo violento através do Jihad, uma espécie de “esforço” para levar a teoria do Islã a outras culturas, assim como Santo Agostinho expôs a doutrina da guerra justa no cristianismo, servindo de justificativa para as Cruzadas e para as guerras preventivas contra o Terror na contemporaneidade.
Platão apregoava que a espiritualidade independente de qualquer crença e deve ser levada seriamente com total convicção de que foi uma escolha pessoal. No bojo dessa premissa, o homem pós-moderno alimenta a cultura da fé e se faz crente tão quanto os seus antepassados, mesmo tendo ao seu redor uma cultura imperante de superficialidade e individualismo.

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