Diálogo com Emília – Tarefa da pág. 4 do almanaque – 7ºs anos

FÁBULAS

1. — Esta fábula está errada — gritou Narizinho. — Vovó nos leu aquele livro do Maeterlinck sobre a vida das formigas — e lá a gente vê que as formigas são os únicos insetos caridosos que existem. Formiga má como essa nunca houve.
Dona Benta explicou que as fábulas não eram lições de história natural, mas de moral. (28:171)
2. Dona Benta riu-se.
— Não, Emília. Quem inventou a fábula foi o povo e os escritores as foram aperfeiçoando. A sabedoria que há nas fábulas é a mesma sabedoria do povo, adquirida à força de experiências. (28:218)
3. — Muito bem. Vamos agora ver se não perdi meu tempo. Que é que você conclui de tudo isto, Pedrinho?
— Concluo, vovó, que as fábulas, mesmo quando não valem grande coisa, têm sempre um mérito: são curtinhas…
— Muito bem. E você, minha filha?
— Para mim, vovó, as fábulas são sabidíssimas. No momento a gente só presta atenção à fala dos animais, mas a moralidade nos fica na memória e de vez em quando, sem querer, a gente aplica el cuento, como a senhora diz.
— Muito bem. E você, Emília?
— Eu acho que as fábulas são indiretas para um milhão de pessoas. Quando ouço uma, vou logo dando nome aos bois: este mono é o Tio Barnabé; aquele asno carregado de ouro é o Coronel Teodorico; a gralha enfeitada de penas de pavão é a filha de Nhá Veva. Para mim, fábula é o mesmo que indireta.
Dona Benta voltou-se para o Visconde.
— E que pensa das fábulas, Visconde?
O sabuguinho assoprou e disse:
— Na minha opinião, as fábulas mostram só duas coisas: 1.o) que o mundo é dos fortes; e 2.o) que o único meio de derrotar a força é a astúcia. Essa da Liga das Nações, por exemplo. Os animais formaram uma liga, mas adiantou? Nada. Por quê? Porque lá dentro estava a onça, representando a força e contra a força de nada valem os direitos dos animais menores. Bem que a irara fez ver o direito desses animais menores. Mas nada conseguiu. A onça respondeu com a razão da força. A irara errou. Em vez de alegar direito, devia ter recorrido a uma esperteza qualquer. Só a astúcia vence a força. Emília disse uma coisa sábia em suas Memórias…
— Que foi que eu disse? — perguntou Emília, toda assanhadinha e importante.
— Disse que se tivesse um filho só lhe dava um conselho: “Seja esperto, meu filho!” Se não fosse a esperteza, o mundo seria duma brutalidade sem conta…
— Seria a fábula do Lobo e o Cordeiro girando em redor do sol que nem planeta, com todas as outras fábulas girando em redor dela que nem satélites — concluiu Emília dando um pinote.
Dona Benta calou-se, pensativa.
(28:280-281)
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