Tarefa de literatura para os 7ºs anos para a semana de 31.07 a 04.08

O que ela mal sabia

Luis Fernando Veríssimo

          Ideia para uma história de terror: uma mulher vai ao dentista, e, enquanto espera a sua vez, pega uma revista para folhear. É daquelas típicas revistas de sala de espera, na verdade apenas parte de uma revista antiga, sem capas, caindo aos pedaços. A mulher começa, distraidamente, a ler um conto. Começa pela metade, pois o começo do conto está numa das páginas perdidas da revista. E de repente a mulher se dá conta que a história é sobre ela. Até os nomes – dela, do marido, de familiares, de amigos – são os mesmos. Tudo que está no conto, ou naquele trecho do conto que ela tem nas mãos, aconteceu com ela. A última linha do trecho que lê é: ―E naquele dia, saindo para ir ao dentista, ela tomou uma decisão: conquistaria sua liberdade. Mal sabia ela que (Continua na página 93). A mulher procura freneticamente, a página 93. A página 93 não existe mais. O pedaço de revista que ela tem nas mãos termina na página 92. Ela é chamada para o consultório do dentista. Na saída, a boca ainda dormente pela anestesia, pergunta para a recepcionista se pode levar aquela revista para casa. Qual revista? Uma que estava ali… A recepcionista se desculpa. Fez uma limpa nas revistas enquanto ela estava lá dentro. Botou tudo fora. Afinal, eram tão antigas… ―Não é possível‖, diz a mulher. ―Você não sabe nem que revista era?‖ ―Desculpe, mas não sei. Não tinha nem mais capas‖. A mulher sai do dentista apavorada. Como a frase na cabeça: ―Mal sabia ela que‖. Que o quê? Sim, tinha decidido conquistar sua liberdade. Pedir, finalmente, desquite ao Joubert. Era a decisão mais importante da sua vida. Mas o que era que ela mal sabia? O que lhe aconteceria? Voltou para a sala de espera. Suplicou à recepcionista. Precisava da revista. Não podia explicar, mas sua vida dependia daquela revista. ―Joguei pela lixeira‖, disse a recepcionista. ―A senhora não pode…‖ Mas ela já está na escada, descendo para o porão do prédio. Não podia esperar nem o elevador. A revista. Precisava saber que revista era aquela. Uma Cruzeiro. Sim, parecia uma Cruzeiro da década de 50. A Cruzeiro publicava contos? Não interessava. Procuraria na lixeira do edifício. Descobriria a data da revista, de alguma maneira descobriria o fim daquele conto e o destino que a esperava.

No porão, teve uma briga com um empregado do prédio que é meio débil mental. ―Não pode mexer no lixo não senhora‖. ―Mas eu preciso!‖ ―Não pode.‖ ―Seja bonzinho!, diz a mulher. Como está ofegante, e com a boca anestesiada, o que ela parece ter dito é ―Você é um bandido‖. ―O quê?‖, diz o homem, avançando na sua direção. No caminho, ela pega uma barra de ferro.

 

O Cruzeiro: uma das principais revistas brasileiras do século XX. Com assuntos variados – politica, cinema, esportes, moda, culinária, etc. -, foi publicada entre 1928 e 1975.

Interpretação:

1) O conto fantástico normalmente é construído a partir da oposição entre dois planos: o plano real das personagens, em que ocorrem fatos comuns, do tipo que realmente acontece ou pode vir a acontecer; e o plano irreal, em que ocorrem fatos estranhos, insólitos, incompreensíveis.

a) Que situação do conto mostra fatos comuns, relacionados com o plano da realidade?

b) Que fato novo introduz no conto o plano irreal?

2) Há, no conto, duas histórias que se inter-relacionam, como se num espelho uma fosse o reflexo da outra. Entretanto, uma das histórias está concluída, e a outra não.

a) Qual das histórias ainda não chegou ao final?

b) Por que é importante para a protagonista (a mulher que está no consultório) conhecer o fim da história publicada na revista?

3) Releia este trecho da história publicada na revista: “E naquele dia, saindo para ir ao dentista, ela tomou uma decisão: conquistaria sua liberdade. Mal sabia ela que”.

  1. a) A protagonista do conto também busca sua liberdade. Para ela, o que era essa liberdade?

b) Ao ler o trecho “Mal sabia ela que”, por que ela se desespera?

4) Nascida do cruzamento do plano real com o plano irreal, a atmosfera fantástica crescer gradativamente, à medida que a personagem encontra vários obstáculos que se opõem ao seu desejo.

a) Quais são os obstáculos?

b) Deles, qual representa o clímax da narrativa?

5) O desfecho de conto é sucinto, resumido a uma única frase: “No caminho, ele pega uma barra de ferro”.

a) O que você acha que aconteceu depois disso?

b) Esse tipo de final é comparável com a frase “Mal sabia ela que”? Por quê?

c) E com a frase “Ideia para uma história de terror”, que inicia o conto?

6) O conto fantástico é um gênero textual geralmente curto, com poucas personagens e ações e tempo e espaço reduzidos.

b) Qual é o tempo e o espaço em que a história transcorre?

7) Predomina no conto fantástico a variedade padrão da língua, mas a linguagem pode variar, de acordo com o perfil das personagens. No conto lido, que variedade linguística predomina?

 

8) É comum, no conto fantástico, as formas verbais serem empregadas predominantemente no pretérito perfeito e no pretérito imperfeito do indicativo. No conto lido, entretanto, isso não ocorre.

a) Que tempo verbal predomina no texto?

b) Que efeito o emprego desse tempo verbal provoca no leitor? Justifique sua reposta.

9) Reúna-se com seus colegas de grupo e, juntos, concluam: Quais são as principais características do conto fantástico? Respondam, levando em conta os critérios a seguir.

  • Finalidade do gênero;
  • Perfil dos interlocutores;
  • Suporte/veículo;
  • Tema; narrativa que estabelece oposição entre o real e o irreal;
  • Estrutura;
  • Linguagem.

(William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, 2007)