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Uma célula que mudou de time

Fonte: CiênciaHoje

Uma platéia atônita assistiu, no último encontro da Sociedade para Estudo da Reprodução, em Québec (Canadá), a uma apresentação dos biólogos Paul W. Dyce, Lihua Wen e Julang Li. Em sua exposição, os três pesquisadores da Universidade canadense de Guelph mostraram que gametas femininos poderiam ser formados a partir de células da pele.A razão para a surpresa das pessoas naquela tarde fria em Québec é que os resultados apresentados pela equipe liderada por Li – que acabam de ser publicados na revista Nature Cell Biology – afrontam um dos princípios da biologia do desenvolvimento (a antiga embriologia, lembra-se?). Segundo esse princípio, seres vivos como eu e você surgem após a união de duas células germinativas (ou gametas) contendo, cada uma, metade de nosso patrimônio genético. Os gametas se transformam na primeira célula de verdade – a célula-ovo –, que irá se diferenciar em mais de 200 tipos celulares especializados.

Um dos primeiros eventos observados no embrião é a formação de dois grupos independentes das células: aquelas envolvidas com a reprodução – chamadas germinativas ou gametas – e as relacionadas com os demais atividades de nosso corpo, conhecidas como células somáticas (termo derivado de somatikòs, a palavra grega para corpo). As células de um grupo são incapazes de se transformarem em representantes do outro grupo. É como se um palmeirense ou um são-paulino (como eu) se tornasse de uma hora para outra um corintiano daqueles empedernidos. Algo impensável!

Comparação da estrutura formada por uma grande célula central circundada por células menores observadas nas células da pele formadoras de óvulos (no alto) e nos com óvulos normais (embaixo) (fonte: Dyce et al., 2006).

A equipe de Li utilizou em sua pesquisa fetos de porco com 40-50 dias, cerca da metade do tempo de gestação desses animais. As células da pele dos animais foram isoladas, mantidas em placas de cultura e, após algum tempo, foram observados alguns agregadoscelulares flutuantes que apresentavam em seu centro uma grande célula. Cerca de 10% desses agrupamentos, quando transferidos para outro local contendo gonadotropina (o hormônio que estimula a produção das células germinativas), se tornaram células com tamanho e aspecto muito similar ao dos óvulos. Além disso, as células produziam diversas proteínas encontradas somente nesses gametas e apresentavam estruturas internas observadas apenas durante um processo de divisão celular – conhecido como meiose – que ocorre apenas durante a formação de gametas.

Os cientistas constataram ainda que alguns desses agrupamentos celulares formavam estruturas com uma cavidade em seu interior, similares às observadas em uma fase do desenvolvimento embrionário conhecida como blastocisto. Neste caso, essas estruturas são denominadas partenotos, porque ocorrem em óvulos que não foram fertilizados durante a partenogênese (para aqueles que não se lembram mais das aulas do colégio, partenogênese é o processo de procriação observado em alguns seres vivos inferiores em condições ambientais adversas, sem a parte divertida do processo – o sexo).

Li e colaboradores observaram que esses agrupamentos celulares eram capazes de secretar os hormônios femininos estradiol e progesterona. Além disso, com os estímulos corretos, esse tipo celular se comportava como uma célula-tronco, capaz de se diferenciar em células amazenadoras de gordura (adipócitos) e neurônios.

As razões que levam células capazes de formar novos tipos celulares, incluindo gametas, a se refugiarem e permanecerem dormentes na pele – um local menos protegido que outras partes do nosso corpo – permanece um mistério.

Outra questão que pode ser levantada é se esse processo é natural ou se aconteceu apenas devido ao ambiente e às condições artificiais a que essas células foram submetidas durante os experimentos. Se for comprovado que esse fenômeno não é casual, resta desvendar o papel dessas células durante a vida adulta: elas são empregadas para repor quais populações de células? Respostas a essas questões podem, no futuro, abrir possibilidades fascinantes para enfrentarmos doenças degenerativas ou mesmo a infertilidade.
Fonte: Ciência Hoje